O plasma atmosférico frio é uma tecnologia em investigação para aplicações dermatológicas e oncológicas, mas seu uso clínico em câncer de pele ainda é limitado. A ceratose actínica é a condição pré-maligna com os sinais clínicos mais relevantes até o momento. Para carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma, as evidências permanecem predominantemente laboratoriais ou pré-clínicas.
Os estudos ajudam a compreender como espécies reativas geradas pelo plasma podem interagir com células alteradas. Entretanto, ainda não demonstram que o CAP substitua cirurgia, cirurgia micrográfica de Mohs, terapia fotodinâmica, medicamentos de campo, radioterapia ou qualquer tratamento oncológico estabelecido.
Para o médico, o ponto central é diferenciar plausibilidade biológica, evidência pré-clínica e benefício clínico comprovado. Essa separação evita que uma tecnologia promissora seja utilizada ou divulgada antes da validação necessária.
Resumo: o que já se sabe sobre plasma frio e oncologia cutânea?
- O CAP produz espécies reativas de oxigênio e nitrogênio capazes de modificar processos celulares.
- Estudos laboratoriais mostram morte de determinadas células tumorais após exposição ao plasma.
- A seletividade por células malignas ainda não está comprovada clinicamente de forma ampla.
- Pequenos estudos clínicos avaliaram CAP em ceratose actínica.
- Não há evidência suficiente para tratamento clínico de carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular ou melanoma.
- O CAP não substitui tratamentos oncológicos estabelecidos.
- O uso para drug delivery em condições pré-malignas continua experimental.
O que é plasma atmosférico frio?
Plasma é um estado parcialmente ionizado da matéria. Em dispositivos médicos, ele pode ser produzido pela aplicação de energia a um gás, como argônio, hélio ou ar.
A descarga gera uma mistura que pode conter:
- elétrons;
- íons;
- campos elétricos;
- fótons;
- espécies reativas de oxigênio;
- espécies reativas de nitrogênio.
O termo frio ou não térmico indica que o sistema foi desenvolvido para limitar o aquecimento do tecido. Isso não significa que todos os dispositivos produzam a mesma temperatura ou o mesmo efeito biológico.
O resultado depende de fatores como:
- gás utilizado;
- potência;
- frequência;
- fluxo de gás;
- distância do tecido;
- tempo de exposição;
- umidade;
- geometria do aplicador;
- características da pele.
Por esse motivo, evidências obtidas com um aparelho não podem ser transferidas automaticamente para outro.
Como o CAP interage com as células?
A maior parte da pesquisa oncológica concentra-se nas espécies reativas de oxigênio e nitrogênio, frequentemente agrupadas pela sigla RONS.
Essas espécies podem alterar:
- membranas celulares;
- proteínas;
- lipídios;
- mitocôndrias;
- vias de sinalização;
- resposta antioxidante;
- mecanismos de morte celular.
Dependendo da dose, a exposição pode produzir efeitos distintos. Doses mais baixas podem modular sinalização e reparo. Exposições mais intensas podem provocar estresse oxidativo, perda de função celular e morte.
Essa relação entre dose e resposta é uma das razões pelas quais a padronização dos dispositivos é indispensável.
Por que células tumorais podem ser mais sensíveis?
Muitas células tumorais apresentam metabolismo alterado e níveis basais elevados de espécies reativas. Em modelos experimentais, um aumento adicional do estresse oxidativo pode ultrapassar a capacidade de defesa dessas células.
Os mecanismos estudados incluem:
- disfunção mitocondrial;
- ativação de vias relacionadas à apoptose;
- alterações em proteínas da família Bcl-2;
- ativação de p53;
- modulação de MAP kinases;
- alterações na permeabilidade da membrana;
- diferenças na atividade antioxidante.
Esses achados sustentam uma hipótese de seletividade. Eles não significam que o CAP reconheça automaticamente uma célula tumoral ou preserve todas as células normais.
A resposta varia entre linhagens, tumores, doses e dispositivos. Exposição excessiva também pode danificar células saudáveis.
A seletividade tumoral está comprovada em pacientes?
Não de maneira suficiente.
A maior parte das evidências sobre seletividade vem de culturas celulares e modelos animais. Em um tecido humano, existem barreiras adicionais:
- espessura da epiderme e da derme;
- matriz extracelular;
- vascularização;
- células imunes;
- antioxidantes presentes no tecido;
- heterogeneidade do tumor;
- profundidade e padrão de crescimento.
Portanto, seletividade observada em laboratório não deve ser apresentada como seletividade clínica comprovada.
Qual é a evidência para ceratose actínica?
A ceratose actínica é a condição pré-maligna cutânea com os sinais clínicos mais desenvolvidos para o CAP, embora a evidência ainda seja limitada.
Um estudo publicado em 2021 avaliou 12 pacientes com múltiplas ceratoses actínicas de face ou couro cabeludo que haviam apresentado resistência ou intolerância a tratamentos anteriores.
Os participantes receberam aplicações de plasma de argônio duas vezes por semana. Após o tratamento, foram observadas reduções no número de lesões, na área cumulativa e no índice de gravidade utilizado pelos pesquisadores.
O estudo também relatou:
- ausência de dor durante as aplicações;
- ausência de eventos adversos registrados;
- alterações ultrassonográficas compatíveis com melhora de aspectos do fotodano.
Apesar dos resultados, o estudo possui limitações importantes:
- amostra de apenas 12 pacientes;
- ausência de grupo controle;
- população altamente selecionada;
- seguimento relativamente curto;
- uso de um dispositivo específico;
- ausência de comparação robusta com tratamentos estabelecidos.
Os dados justificam novos ensaios, mas não colocam o CAP como tratamento de primeira linha para ceratose actínica.
O CAP pode tratar o campo de cancerização?
Campo de cancerização é uma região exposta cronicamente a fatores carcinogênicos, especialmente radiação ultravioleta, e que pode conter alterações clínicas e subclínicas.
Os tratamentos de campo estabelecidos incluem, conforme indicação médica:
- 5-fluorouracil;
- imiquimode;
- terapia fotodinâmica;
- diclofenaco;
- tirbanibulina;
- combinações terapêuticas.
O CAP ainda não possui ensaios comparativos suficientes para demonstrar equivalência ou superioridade em relação a essas modalidades.
Seu papel permanece investigacional, especialmente em pacientes que não toleram ou não respondem às opções convencionais.
Qual é a evidência para carcinoma basocelular?
A evidência para carcinoma basocelular é predominantemente pré-clínica.
Estudos laboratoriais avaliaram células e amostras de tecido expostas ao plasma e encontraram sinais de estresse oxidativo e morte celular. Esses experimentos ajudam a compreender mecanismos, mas não demonstram cura, controle de margem ou prevenção de recorrência em pacientes.
Não há base clínica suficiente para utilizar CAP como tratamento de carcinoma basocelular.
As opções estabelecidas continuam incluindo, conforme subtipo e risco:
- excisão cirúrgica;
- cirurgia micrográfica de Mohs;
- curetagem e eletrocoagulação em casos selecionados;
- terapia fotodinâmica para determinadas lesões superficiais;
- medicamentos tópicos em situações específicas;
- radioterapia;
- terapias sistêmicas em doença avançada.
E para carcinoma espinocelular e melanoma?
Para carcinoma espinocelular e melanoma, a maior parte das pesquisas também permanece em células, tecidos ex vivo ou modelos animais.
Estudos pré-clínicos investigam:
- apoptose;
- ferroptose;
- resposta imune;
- combinação com terapia fotodinâmica;
- redução da proliferação tumoral;
- sensibilização a outros tratamentos.
Um estudo experimental publicado em 2025 observou melhora da resposta à terapia fotodinâmica em modelo murino de carcinoma espinocelular induzido por UVB. Esse resultado não equivale a evidência clínica em humanos.
Lesões suspeitas de carcinoma espinocelular ou melanoma exigem diagnóstico e tratamento oncológico convencional sem atraso.
O CAP consegue penetrar profundamente na pele?
As espécies reativas produzidas pelo plasma apresentam diferentes tempos de vida e capacidades de difusão.
Espécies de curta duração tendem a atuar próximas à superfície. Espécies mais estáveis podem interagir com fluidos e tecidos por distâncias maiores.
A profundidade efetiva depende de:
- tipo de espécie reativa;
- dose;
- estado da barreira cutânea;
- umidade;
- arquitetura do tecido;
- presença de fluidos;
- tempo de exposição.
Valores obtidos em meios celulares ou experimentos específicos não representam uma profundidade universal de ação em pele humana.
Essa limitação é especialmente importante em tumores com componente dérmico, crescimento infiltrativo ou extensão subclínica.
O CAP pode aumentar a permeabilidade da pele?
Estudos experimentais mostram que determinadas exposições ao CAP podem aumentar temporariamente a passagem de moléculas através da barreira epidérmica.
Os mecanismos investigados incluem:
- oxidação de lipídios do estrato córneo;
- alteração temporária de proteínas de adesão;
- aumento da permeabilidade das membranas;
- mudança transitória das junções celulares.
Um estudo publicado em 2025 demonstrou aumento da entrega transepidérmica de moléculas hidrofílicas usando plasma de baixa intensidade dentro de uma faixa considerada subcitotóxica no modelo experimental.
O próprio conceito de faixa subcitotóxica mostra que a dose precisa ser definida para cada dispositivo. Exposição acima desse limite pode provocar dano celular.
CAP pode ser combinado com 5-fluorouracil ou imiquimode?
Essa combinação ainda não está validada por ensaios clínicos adequados.
Aumentar a permeabilidade da pele pode modificar:
- quantidade de medicamento absorvida;
- profundidade de penetração;
- intensidade da inflamação;
- risco de erosão;
- absorção sistêmica;
- perfil de eventos adversos.
Por isso, não é seguro presumir que aumentar a penetração produza automaticamente um resultado melhor.
Medicamentos utilizados no tratamento de ceratose actínica devem seguir formulação, dose, frequência e modo de aplicação estudados e aprovados.
Onde o SAFECoring pode ser contextualizado?
O SAFECoring é apresentado como um recurso do Mjolnir Pro para criação controlada de vias de permeabilização cutânea.
Para associá-lo a uma aplicação oncológica ou pré-oncológica, seriam necessários dados específicos sobre:
- profundidade e diâmetro das vias criadas;
- tempo de fechamento da barreira;
- efeito sobre queratinócitos e melanócitos;
- compatibilidade com medicamentos;
- risco de inflamação;
- absorção local e sistêmica;
- segurança sobre pele fotodanificada;
- estudos em ceratose actínica;
- indicações regulatórias do equipamento.
Estudos gerais sobre drug delivery por plasma não validam automaticamente o SAFECoring para tratamento de ceratose actínica ou campo de cancerização.
Lesões suspeitas não devem ser permeabilizadas ou tratadas cosmeticamente antes do diagnóstico.
O Mjolnir Pro pode ser apresentado como equipamento oncológico?
Somente se suas indicações autorizadas e sua documentação técnica permitirem esse posicionamento.
A presença de uma tecnologia de plasma em um equipamento não demonstra:
- tratamento de câncer de pele;
- redução de recorrência;
- eliminação seletiva de células malignas;
- tratamento de campo de cancerização;
- compatibilidade com medicamentos oncológicos;
- segurança sobre lesões tumorais.
O posicionamento mais responsável é apresentar o equipamento de acordo com suas indicações regulatórias, sem utilizar pesquisas experimentais de outros dispositivos como comprovação clínica própria.
Quais pesquisas ainda são necessárias?
Para que o CAP avance na oncologia cutânea, a literatura precisa responder questões práticas.
Padronização da dose
É necessário estabelecer formas comparáveis de medir as espécies reativas produzidas e a dose biológica entregue ao tecido.
Estudos específicos por dispositivo
Equipamentos com gases, geometrias e potências diferentes não devem ser agrupados como se fossem uma única intervenção.
Ensaios randomizados em ceratose actínica
O CAP precisa ser comparado com tratamentos de campo estabelecidos, utilizando desfechos como clareamento completo, redução de lesões, tolerabilidade e recorrência.
Avaliação histológica
Melhora visual não confirma eliminação de células displásicas. Estudos com biópsia podem ajudar a diferenciar resposta clínica superficial de controle histológico.
Segurança de longo prazo
São necessários dados sobre aplicações repetidas, genotoxicidade, alterações de pigmentação, cicatrização e risco de recorrência.
Combinação com outras terapias
Associações com terapia fotodinâmica, medicamentos ou imunoterapia precisam de avaliação formal de dose, sequência e segurança.
O que um ensaio em tumores sólidos representa para a dermatologia?
O estudo clínico NCT04267575 foi desenvolvido para avaliar a segurança de um sistema cirúrgico de plasma frio utilizado de forma intraoperatória em pacientes com tumores sólidos avançados e carcinomatose.
Esse contexto é diferente do tratamento dermatológico ambulatorial. O estudo não valida aplicação tópica em ceratose actínica, carcinoma basocelular ou campo de cancerização.
Ele demonstra que o CAP também está sendo investigado em oncologia cirúrgica, mas seus resultados não devem ser transferidos diretamente para o consultório dermatológico.
Como o médico deve interpretar a literatura atual?
| Aplicação | Nível atual de evidência | Interpretação |
|---|---|---|
| Ceratose actínica | Pequenos estudos clínicos | Promissor, mas insuficiente para primeira linha |
| Campo de cancerização | Dados clínicos limitados | Uso investigacional |
| Carcinoma basocelular | Predominantemente pré-clínico | Sem indicação terapêutica estabelecida |
| Carcinoma espinocelular | Pré-clínico e experimental | Não substitui cirurgia ou outros tratamentos |
| Melanoma | Predominantemente celular e animal | Sem aplicação clínica dermatológica validada |
| Drug delivery | Experimental | Exige validação por molécula e dispositivo |
| Combinação com terapia fotodinâmica | Principalmente pré-clínica | Hipótese para ensaios futuros |
Perguntas frequentes
O plasma frio pode substituir a cirurgia para carcinoma basocelular?
Não. Não há evidência clínica suficiente para essa substituição. A escolha terapêutica deve seguir subtipo, localização, risco, profundidade e diretrizes oncológicas.
CAP pode ser utilizado como primeira linha para ceratose actínica?
A evidência atual não sustenta uso rotineiro de primeira linha. Os estudos clínicos são pequenos e ainda faltam comparações robustas com tratamentos estabelecidos.
A melhora visual confirma que a lesão pré-maligna foi eliminada?
Não necessariamente. Avaliação clínica, dermoscopia e, quando indicada, histologia são necessárias para analisar a resposta.
O CAP mata apenas células tumorais?
Não. Alguns modelos mostram maior sensibilidade de células tumorais, mas células normais também podem sofrer dano conforme a dose.
O plasma frio causa mutações?
Os dados de segurança disponíveis não permitem afirmar ausência universal de risco genotóxico. O efeito depende de dose, dispositivo, repetição e tecido. Estudos de longo prazo continuam necessários.
O CAP pode ser aplicado sobre uma lesão sem diagnóstico?
Não é recomendável. Uma lesão suspeita deve ser avaliada e diagnosticada antes de qualquer procedimento que possa alterar sua aparência ou dificultar a investigação.
É seguro aumentar a penetração de medicamentos com plasma?
Não sem protocolo validado. A permeabilização pode modificar dose, absorção e eventos adversos.
O SAFECoring trata campo de cancerização?
Não há evidência clínica suficiente para essa afirmação. Qualquer posicionamento desse tipo exige estudos específicos e indicação regulatória correspondente.
CAP é uma tecnologia promissora
O plasma atmosférico frio apresenta uma base mecanística relevante e uma produção científica crescente. Sua capacidade de gerar espécies reativas, modificar sinalização celular e aumentar temporariamente a permeabilidade da pele justifica a continuidade das pesquisas.
Na oncologia cutânea, a ceratose actínica possui os sinais clínicos mais concretos, mas ainda baseados em estudos pequenos. Para carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma, os dados permanecem predominantemente experimentais.
Drug delivery, combinações com medicamentos e aplicações do SAFECoring em campo de cancerização também precisam de validação específica antes de integrar protocolos clínicos.
O médico que acompanha essa literatura deve manter duas ideias simultâneas: o CAP é uma tecnologia promissora, mas ainda não é uma terapia oncológica cutânea estabelecida. O avanço responsável depende de padronização, estudos controlados e comunicação rigorosa dos limites atuais.
